A melhor política de preços para a Petrobras: nenhuma

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Estamos ainda vivendo a greve dos caminhoneiros: apesar das estradas já não estarem mais bloqueadas e não haver mais nenhum desabastecimento, o governo ainda sofre em negociatas com os motoristas. A tabela do frete não foi acertada, os R$0,46 centavos de desconto não chegaram totalmente nas bombas e, para piorar, a Petrobras e todos os seus investidores aguardam ansiosamente por uma mudança na política de preços.

A greve foi desastrosa e, no final das contas, um grupo (os caminhoneiros) conseguiu extrair uma renda extra de toda a sociedade, sendo que esta última irá pagar por todas as benesses concedidas pelo governo.

Porém, o pior efeito colateral da greve é o que aflige a Petrobras, uma empresa que na visão de muitos, inclusive do governo, deve praticar uma política de preços. Empresa e política já não deveriam constar na mesma frase, mas a gigante petroleira é de capital misto, onde os interesses do Estado ocupam 51% dos interesses privados dos demais acionistas da empresa.

O procedimento de preços (termo muito melhor que política de preços) que a Petrobras adota hoje é repassar integralmente as flutuações do preço do petróleo, que é cotado internacionalmente, para os preços aqui no Brasil. Como a cotação do barril do petróleo varia todo dia, no mercado global, o preço dos combustíveis vendidos pela Petrobras também acabam variando diariamente.

Isso é algo que faz total sentido, uma vez que a Petrobras é uma empresa de petróleo global, e, em um mercado, só pode existir apenas um preço. Essa é uma lei básica da economia: se existem dois preços para o mesmo produto, provavelmente alguém vai vender tudo e outro nada.

A variação de preço

O choro dos grevistas e do cidadão comum brasileiro, vem do fato de que os preços não deveriam mudar diariamente. Pois, na interpretação grevista, preço mudar diariamente é uma afronta, já que tira a previsibilidade. Quanto a previsão, realmente é impossível não concordar. Mas vivemos em um mundo complexo, onde um único produto depende de uma cadeia gigantesca de empresas e insumos, cada um com sua própria dinâmica de preços e também suas próprias complexidades subjacentes. Preços mudam, diariamente, semanalmente, mensalmente ou anualmente.

Pode prestar atenção no mercado: pequenas variações são comuns a todos os preços, em uma periodicidade maior do que você imagina.

E quando os preços parecem não mudar? É por que existem mecanismos de mercado que os protegem dessas variações, os chamados mercados futuros. Preços como o de soja, milho, café e boi gordo, variam todos os dias, sem exceção. E mesmo assim não vemos uma greve de açougueiros, produtores de curau, marcas de café ou churrascarias, todos pedindo maior previsibilidade em seus preços.

O que de fato se observa, é que o mercado desses bens se desenvolveu de forma que existem instrumentos financeiros, que atuam nos mercados futuros, que garantem que o preço não vai mudar tanto para o produtor quanto para o comprador, por algum período de tempo determinado. O que no final garante a tão desejada previsibilidade.

Mercados futuros

Vamos pensar em um exemplo existente de mercados futuros: o da soja. Imaginemos o seu José, produtor. Ele pode garantir que vai vender as suas 10.000 sacas de soja a R$95,00 por saca, daqui a 6 meses. Enquanto o seu Jonas, dono da fábrica de óleo de soja, pode garantir que irá comprar as mesmas 10.000 sacas que vai precisar daqui 6 meses também por R$95,00. Mesmo que o preço da soja no mercado a vista, seja de R$150,00 por saca, R$85,00 ou qualquer outro preço. Isto é, tanto para o seu Jonas, quanto para o seu José, tanto faz o preço atual da soja nos mercados internacionais (igual o preço do petróleo), eles conseguem ter perfeita previsibilidade, sem choro e sem greves. E por consequência direta, evita variações no preço final do óleo de soja, aquele mesmo que você coloca no carrinho do supermercado.

Note que o risco sai da mão tanto do comprador quanto do vendedor. Ele acaba indo integralmente para o mercado financeiro que está disposto a correr esse risco, eles quem vão absorver os movimentos de sobe e desce dos preços. De forma bem simplória, essa é a lógica dos mercados futuros.

Logo, os postos de gasolina, distribuidores e até mesmo as empresas de exploração e refino poderiam usar este mercado, caso ele existisse. Por aqui, ainda não temos um mercado futuro para combustíveis, mas nos Estados Unidos este mercado existe e funciona muito bem.

Ao invés de discutirmos a mudança da lógica capitalista da Petrobras para um encaminhamento de “preços socialmente justos e previsíveis” (algo que irá nos trazer enorme custo) ou mudar a estrutura de impostos sobre combustíveis, podemos discutir uma saída via mercado, onde o risco sai das mãos do governo, do domínio da Petrobras, do dono do posto e até mesmo de nós consumidores.

Existe uma saída via mercado, que não só não envolve política, como também oferece caminhos reais de solução.

Victor Cândido Victor Cândido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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