Juros mais altos nos EUA: uma surpresa?

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O Federal Reserve, o chamado “Fed”, decidiu elevar os juros dos EUA, de 1,50-1,75% para 1,75-2,00% ao ano. Esta foi a 2ª alta do ano, e a 7ª desde a saída da crise americana. Faço aqui um update do texto em que já mencionei que os juros estão cada vez mais altos. Quais são as perspectivas à frente? O que isto representa para os investidores no Brasil?

A decisão de elevar os juros neste momento já estava sendo esperada pelo mercado. Não surpreendeu em nada. Os investidores estavam mais interessados em saber o que diria Jay Powell, o atual presidente do Fed. E também estavam à espera das novas projeções de PIB, desemprego, inflação e taxas de juros. A última vez que Powell participou de uma coletiva como esta e projeções oficiais foram divulgadas, foi dia 21 de março. De lá para cá, o que teria mudado?

Nos gráficos a seguir, reportamos como tem evoluído as projeções de PIB e inflação dos dirigentes do Fed. Nos últimos meses, a tendência é clara: o Fed espera uma economia americana mais aquecida e, com isso, uma inflação ligeiramente mais alta. Vários fatores devem ter influenciado estas revisões, incluindo a reforma tributária (aprovada no final de 2017 no Congresso) e as políticas comerciais mais protecionais de Donald Trump. No “longo prazo”, o Fed ainda considera um crescimento do PIB de 1,8%, e uma inflação de 2,0%, o centro da meta. 

E a expectativa para as taxas de juros?

O Fed agora espera que, até o final deste ano, venham outras 2 elevações adicionais, e não apenas 1. Ou seja: se o plano de voo do Fed se concretizar, serão, ao todo, 4 elevações de juros em 2018. No curto prazo, portanto, o Fed fez um ajuste nada trivial. Para 2019, mais 3 elevações. Para 2020, mais 1. Ou seja, até lá, os chamados Fed Funds Rate chagariam a 3,25-3,50% ao ano. No gráfico a seguir fazemos uma comparação entre as expectativas de março e junho. Cada “bolinha” representa a expectativa de cada dirigente do Fed.

 

Mais juros no curto prazo é algo que nos surpreendeu?

Não. No dia 27 de março, após elencar alguns pontos, dissemos: “não nos surpreenderia se, na reunião de junho (dias 12 e 13), o Fed passasse a mostrar um cenário-base de 4 elevações de juros para 2018, e não 3”. Afinal, “Continuamos acreditando que há um viés altista para a inflação, que fará o Fed adotar uma postura pró-normalização de juros mais clara”.

E sobre as sinalizações de Jay Powell?

A coletiva de imprensa de Powell conseguiu acalmar aos mercados. As pressões de alta sobre dólar e juros das Tresauries, que aumentaram após o anúncio da decisão e projeções, diminuíram até o final da sessão. Powell fez questão de salientar que “a economia está indo muito bem”. Mas que não há plano de voo definido para os próximos meses. Continuaremos dependendo dos dados ao longo do tempo. Para 2019 teremos uma mudança importante: haverá coletiva de Powell após toda reunião de política monetária do Fed. Ou seja: ao invés de apenas 4 coletivas no ano, teremos 8 (o número total de reuniões). Isto dará maior flexibilidade de comunicação com o mercado, e maior transparência. 

À frente, o que esperar?

Continuamos acreditando que a economia dos EUA continuará forte, e a inflação deve continuar com viés altista. Aliás, muito em breve, a inflação deve ficar acima da meta do Fed. Ao menos no curto prazo, ainda vemos o dólar forte ao redor do mundo, e um ambiente mais desafiador para os países emergentes. Afinal, a liquidez internacional tende a diminuir. Para quem não acreditava em juros mais altos por lá, é melhor se acostumar: o mundo está mudando.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. Desde 2013, é o economista da Guide Investimentos, responsável pelas análises de economia nacional e internacional. Twitter: @IgnacioCrespo10

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