Um dólar a R$4, ou acima disto?

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No último dia 10 de maio, escrevi um texto sobre o que estava acontecendo com o dólar, comentando as razões por trás do fortalecimento da moeda dos EUA em 2018. Este movimento se dá frente às moedas dos emergentes com maior intensidade, mas também foi observado frente aos desenvolvidos. O que podemos esperar para o dólar?

Do dia 10 pra cá, o dólar já sobe quase 10% frente ao real. Naquele momento, estava ao redor de R$3,55. Hoje, dia 7 de junho, oscila pouco abaixo de R$3,90. Irá pra R$4,00? Superará R$4,00? Qual o viés para o dólar, mesmo tendo subido 17% no ano de 2018 aqui no Brasil?

Assim como no início de maio, continuamos vendo um viés altista para a moeda dos EUA. Olhando o exterior, temos que o movimento é estrutural. Aqui, a janela de curto prazo não nos parece muito favorável. Temendo um resultado “extremo” das eleições ao Planalto, investidores têm adicionado prêmio de risco aos ativos locais. É difícil restringir a análise apenas a questões “macro”.

Ao redor do mundo, o dólar tem refletido uma normalização das políticas do banco central americano, que vieram para ficar, em nossa opinião. Alguns exemplos: o euro, que atingiu a sua máxima frente ao dólar no início de fevereiro, já recua quase 6% desde então; a libra, que atingiu máxima dia 16 de abril, já recua mais de 6,5% até aqui. Frente a emergentes, este é o desempenho até ontem. O real recua 14,1%, enquanto a média de depreciação dos emergentes que acompanhamos é de -3,5%.

 

Aliás, fazendo uma retrospectiva, é possível dizer que a depreciação do real neste ano – assim como a de moedas de Turquia e Argentina – se deve, também, às fragilidades no front macro de cada um. Índices de fragilidades de emergentes, calculados por Armando Castelar (Ibre/FGV), mostram isto. Não parece ser uma coincidência que as 3 moedas que mais se enfraquecem neste ano são, justamente, daqueles países com maiores fragilidades macro*.

 

A incerteza quanto ao patamar do R$/US$ é também consequência da incerteza com relação às eleições de outubro. Ou seja: embora o cenário internacional seja, até aqui, o grande “culpado” de vários movimentos de mercado (incluindo o do câmbio!), acreditamos que a corrida ao Planalto começa a entrar no radar. Algo óbvio, mas que nos traz pistas sobre o futuro próximo…

Continuamos acreditando que não há, no momento, importantes “gatilhos” para devolver a alta recente do dólar. Embora a normalização de juros do Fed esteja melhor precificada, temos pela frente uma janela potencialmente mais negativa considerando o noticiário aqui no Brasil.

No melhor dos casos, parece-nos que as pesquisas eleitorais nos próximos 2 meses devem continuar indicando “extremos” competitivos. Bolsonaro (PSL), Marina (Rede) e Ciro (PDT) devem continuar no topo das pesquisas. A indefinição do chamado “centro” não deve diminuir até o fim do período das convenções dos partidos (que vai de 20 de julho a 5 de agosto).

No front macro, o mercado projeta hoje um crescimento de PIB para 2018 de 2,18%. Há 4 semanas, esperava 2,70%. O viés segue sendo baixista. É natural que o consenso migre para 2,00%. E, dado o nível de incertezas, não seria inimaginável ver algo abaixo deste número.

Por último, vale fazer uma observação para aqueles que enxergam um dólar a R$4,00 ou acima disto como sendo algo muito improvável: em termos reais – considerando o IPCA como o índice de inflação –, temos que o R$/US$ não parece, ainda, tão depreciado assim. Aliás, muito pelo contrário, considerando o seu histórico recente. Se as perspectivas para a política continuarem a migrar para “extremos” podemos, sim, atingir níveis de câmbio mais depreciados. É algo bastante possível.

 

 

 

Observações:

* Vale aqui uma observação: claro que outros fatores contribuem para os movimentos do câmbio, e que esta análise, isolada, é inconclusiva. Diversos problemas poderiam ser apontados, mas, ao menos, serve para não esquecermos que o problema fiscal – uma das variáveis que compõe o índice – segue sendo um calcanhar de Aquiles por aqui. O índice calculado por Castelar foi inicialmente proposto pelo Fed anos atrás. Veja aqui mais comentários sobre isto, em seu blog.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista-chefe da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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